Por Pedro Payne
A conta do sedentarismo chega como um boleto invisível. Descobri isso pedalando com meu filho.
Ele tem três anos e vai na cadeirinha atrás da bicicleta. Saímos de casa devagar, cruzamos algumas ruas da Candangolândia e seguimos em direção aos parquinhos do bairro. Às vezes o passeio dura vinte minutos. Às vezes dura uma manhã de sábado. Depende menos da distância e mais da quantidade de balanços e escorregadores coloridos encontrados no caminho.
Enquanto ele brinca, eu já pedalei um pouco, faço alguns exercícios, e brinco com ele. Nada sofisticado. Apenas o suficiente para manter o corpo funcionando.
A Candangolândia tem algo curioso: ela faz parte da história inicial de Brasília. Surgiu ainda no período da construção da capital, quando trabalhadores conhecidos como “candangos” se instalaram na região. Caminhar por ali hoje tem algo de simbólico. Um bairro que nasceu do esforço físico de quem construiu a cidade acaba sendo também um bom lugar para lembrar que o corpo humano foi feito para se mover.
Essa ideia parece óbvia. Mas a cidade moderna, muitas vezes, funciona como se não fosse.
O cotidiano urbano nos treina para o oposto. Longos deslocamentos sentados, horas diante de telas, pouco espaço para movimento espontâneo. O resultado é um paradoxo silencioso: quanto mais confortável se torna a vida urbana, mais sedentária ela tende a ficar.
E o sedentarismo cobra seu preço.
Segundo a OMS, a inatividade física está entre os principais fatores de risco para doenças crônicas como diabetes, problemas cardiovasculares, depressão e ansiedade. No Brasil, estudos estimam que milhões de reais são gastos todos os anos tratando condições diretamente associadas ao sedentarismo. Boa parte dessa conta passa inevitavelmente pelo SUS.
É aqui que aparece uma espécie de ironia urbana: o governo paga duas vezes.
Primeiro paga pelo modelo de cidade que incentiva o corpo parado: grandes vias pensadas quase exclusivamente para carros, deslocamentos longos, bairros que exigem motor para qualquer atividade cotidiana. Depois paga novamente quando a consequência aparece na forma de doenças que poderiam ter sido prevenidas com movimento regular.
As cidades acabam financiando o sedentarismo — e depois pagando para tratá-lo.
O curioso é que a solução não exige tecnologias revolucionárias nem investimentos impossíveis. Muitas vezes ela passa por algo surpreendentemente simples: criar condições para que o movimento volte a fazer parte da vida cotidiana.
Ciclovias contínuas. Parques acessíveis. Calçadas que convidem a caminhar. Pequenos trajetos que possam ser feitos pedalando. Espaços urbanos onde o exercício não seja um evento extraordinário, mas apenas parte da rotina.
Quando pedalo com meu filho pela Candanga, não estou fazendo um gesto heroico nem participando de um programa público sofisticado. Estou apenas aproveitando um pedaço de cidade que ainda permite isso: deslocar-se devagar, usar o corpo, transformar o caminho em atividade.
A verdade é que o exercício, para mim, virou algo natural. Mas ele não surgiu espontaneamente. Exige escolha. Exige disciplina. Talvez essa seja uma herança silenciosa da vida militar: aprender que cuidar do próprio corpo não é luxo, é responsabilidade.
E essa lógica individual poderia ser aplicada também às cidades.
Uma cidade disciplinada não seria cheia de regras, mas sim uma que escolhe conscientemente investir no que previne problemas futuros. Uma cidade que entende que mobilidade ativa não é apenas lazer ou estética urbana — é também política de saúde pública.
Porque cada pessoa que caminha mais, pedala mais ou simplesmente se move com mais frequência representa, no longo prazo, menos pressão sobre hospitais, menos medicamentos contínuos e mais qualidade de vida coletiva.
Pedalar alguns quilômetros não parece uma política pública. Mas, multiplicado por milhares de pessoas, vira exatamente isso.
Quando volto para casa depois desses passeios, meu filho fica relaxado, quase poderia dormir no caminho. A bicicleta segue devagar pelas ruas do bairro, o sol já mais alto, o barulho da cidade um pouco distante.
E enquanto pedalo, penso que talvez a pergunta mais importante sobre mobilidade urbana não seja quanto custa construir ciclovias ou parques. Talvez a pergunta mais honesta seja outra.
Quanto custa não construí-los?



