A região sul do Jardim Botânico cresceu, ganhou vida própria e agora precisa pensar em como se conectar melhor ao restante de Brasília.

Eu gosto de morar no Jardim Botânico.

Talvez porque minha relação com esse lugar tenha começado muito antes de imaginar que um dia voltaria para cá para construir minha própria família.

Morei no bairro quando tinha 13, 14 anos. Lembro da sensação de liberdade de andar pelas ruas dos condomínios, de encontrar pessoas conhecidas pelo caminho, de poder circular com uma tranquilidade que hoje parece cada vez mais rara nos grandes centros urbanos.

É uma sensação que reencontro hoje, de uma maneira diferente, na região sul do Jardim Botânico.

Para quem busca uma vida mais tranquila, existe aqui algo muito especial. O ritmo é diferente. Há um pouco daquela atmosfera de cidade do interior: pessoas que se conhecem, crianças que crescem com mais liberdade, vizinhos que se encontram, uma relação mais próxima com os espaços onde vivem.

Gosto também da possibilidade de oferecer às minhas filhas essa multiplicidade.

Aqui elas podem experimentar, no mesmo lugar, um pouco da vida rural e da vida urbana. Podem conhecer uma horta, estar perto dos animais, brincar ao ar livre e, ao mesmo tempo, ter acesso a restaurantes, mercados, academias, comércio e tantos outros serviços que foram surgindo na região.

E isso é uma transformação importante.

Quem mora aqui há mais tempo sabe o quanto a região mudou.

Mobilidade no Jardim Botânico

Foto: Cristiano Costa/Fecomércio DF
O Jardim Botânico é uma Região Administrativa (RA XXVII) do Distrito Federal.

Alexandre, proprietário na região desde 2008 e morador do Tororó desde 2016, acompanha essa transformação de perto. Síndico do Condomínio Mansões Rurais do Lago Sul, ele lembra que, quando chegou, a realidade era bastante diferente.

“Quando eu vim para cá, a DF-001, desde o Jardim Botânico até aqui, era pista simples. A DF-140 também era pista simples e não tinha iluminação. Era um caos, com engarrafamentos e muitos acidentes.”

De lá para cá, muita coisa mudou. Vieram duplicações, iluminação, pavimentação de acessos e melhorias importantes na infraestrutura.

O próprio Alexandre lembra que algumas vias internas da região, que durante muito tempo eram de terra, começaram a receber pavimentação e iluminação, aproximando condomínios e comunidades que antes tinham acessos muito mais difíceis.

É importante reconhecer esse avanço.

A região não está parada. Ela está crescendo e se transformando.

Hoje, já é possível resolver grande parte da vida cotidiana sem precisar atravessar Brasília. O comércio local se fortaleceu; novos restaurantes surgiram; mercados, farmácias, serviços e pequenos negócios passaram a atender uma população que deixou de ser apenas uma comunidade residencial.

Jardim Botânico e São Sebastião também se complementam. Muitas vezes, o comércio de São Sebastião é uma escolha natural para quem mora nos condomínios da região sul do Jardim Botânico, inclusive pela variedade e pelos preços mais acessíveis.

Aos poucos, construímos uma vida própria. Essa transformação também é percebida por quem chegou de outras cidades.

Carol Stan se mudou de São Paulo com a família e escolheu viver no Alphaville Brasília. Para ela, existe uma diferença importante entre a experiência que tinha no Alphaville de São Paulo e a que encontra aqui.

Em São Paulo, conta Carol, a estrutura do próprio Alphaville permite resolver praticamente tudo no dia a dia sem precisar sair da região. Há uma grande variedade de comércio, serviços, escolas, atendimento de saúde e outras atividades que tornam os deslocamentos até os grandes centros menos necessários.

Em Brasília, ela ainda percebe essa dependência. Mesmo assim, Carol afirma que gosta de morar aqui e valoriza justamente a qualidade de vida que encontrou na região.

A comparação é interessante porque mostra que ter uma vida local forte não significa deixar de se conectar com a cidade. Significa poder escolher quando essa conexão é necessária.

E essa talvez seja uma das próximas etapas do desenvolvimento da região sul do Jardim Botânico: fortalecer aquilo que já existe sem abrir mão de boas conexões com os grandes centros de Brasília.

Mobilidade no Jardim Botânico: uma região que cresceu e precisa se conectar

Quando falamos sobre a mobilidade dessa região, é importante entender um pouco da geografia do Jardim Botânico.

A Região Administrativa do Jardim Botânico é extensa e reúne territórios com características bastante diferentes. De forma simplificada, podemos pensar em três grandes áreas: o Altiplano Leste; a área dos condomínios mais centrais, entre o Solar de Brasília e a Avenida do Sol, próxima a São Sebastião; e a região sul do Jardim Botânico, depois da Papuda, formada principalmente pelos núcleos que se desenvolveram ao longo da DF-140 e da DF-001, incluindo Tororó, Barreiro, Alphaville e diversos outros condomínios e comunidades.

Essa localização é importante para entender o desafio.

DF-140 e mobilidade no Jardim Botânico

A região sul do Jardim Botânico cresceu ao longo de um eixo que concentra grande parte dos deslocamentos de seus moradores. Ao mesmo tempo, São Sebastião se consolidou como um importante centro urbano e de serviços para essa população.

A região cresceu, mas ainda não possui todos os equipamentos necessários para atender integralmente às necessidades de seus moradores.

Já temos comércio, restaurantes, mercados, farmácias e uma economia local cada vez mais pulsante. Mas ainda faltam escolas em quantidade suficiente, serviços de saúde de maior complexidade e outros equipamentos públicos e privados.

Temos uma UPA em São Sebastião e serviços de saúde que vêm crescendo, mas quem precisa de determinados atendimentos especializados ou de estruturas hospitalares de maior porte ainda precisa se deslocar.

Por isso, a conexão com os grandes centros continua sendo necessária.

E é justamente quando precisamos sair que percebemos uma das maiores fragilidades da região: a mobilidade.

Para quem depende diariamente do transporte coletivo, esse desafio é ainda maior.

Em conversa para este artigo, Lúcia Vieira, presidente do CMEC São Sebastião, moradora da região do Barreiro e trabalhadora no SIA, contou como organiza sua rotina para conseguir chegar ao trabalho.

“Para conseguir chegar ao trabalho no horário, preciso acordar às 4h da manhã para pegar o ônibus das 4h50. Se eu perder esse ônibus e precisar pegar o das 6h, já enfrento um trânsito intenso e dificilmente consigo chegar no horário.”

Em alguns dias, Lúcia precisa utilizar mais de uma linha de ônibus, enfrentando longos deslocamentos, integrações e veículos lotados. No retorno, chega em casa muitas vezes entre 20h e 20h30.

Em alguns dias, o marido precisa levá-la e a filha de carro para que consigam chegar no horário. É uma rotina que evidencia o quanto a falta de alternativas de mobilidade interfere diretamente na organização das famílias.

Essa realidade mostra que mobilidade não é apenas uma discussão sobre carros e congestionamentos.

É uma discussão sobre tempo. Sobre trabalho. Sobre educação. Sobre acesso à saúde. Sobre convivência familiar. E sobre a possibilidade de uma pessoa escolher onde morar sem que isso signifique passar horas do seu dia em deslocamentos.

Precisamos de alternativas

É nesse contexto que uma proposta discutida há anos volta a merecer nossa atenção.

Recentemente participei de uma conversa com o arquiteto e urbanista Roberto Portella sobre a chamada Rodovia Ecológica, uma proposta que prevê uma nova ligação entre a DF-140 e o sistema viário do Lago Sul, conectando a região às DF-003 e DF-025.

Na prática, a ideia é criar uma nova alternativa de conexão para quem vive na região sul do Jardim Botânico, permitindo um acesso mais direto ao sistema viário do Lago Sul e, consequentemente, ao Plano Piloto, ao SIA e ao Aeroporto.

E aqui está um ponto que considero fundamental:

não estamos falando apenas de construir mais uma estrada.

Estamos falando de distribuir melhor os deslocamentos.

Hoje, uma grande quantidade de pessoas que vive ao longo da DF-140 precisa utilizar as mesmas alternativas para deixar a região e acessar o restante de Brasília.

É como se tivéssemos milhares de pessoas tentando sair por poucas portas. Uma nova ligação criaria outra porta.

Transporte coletivo no Jardim Botânico

Entrega da primeira linha de ônibus exclusiva para o Jardim Botânico à região em 2016.

Ao permitir que parte desse fluxo tenha acesso ao sistema viário do Lago Sul por um novo ponto, os deslocamentos poderiam ser distribuídos por diferentes caminhos e destinos.

Quem segue para o Plano Piloto teria uma alternativa. Quem precisa acessar o SIA teria outra possibilidade de conexão. Quem precisa chegar ao aeroporto também poderia utilizar esse novo eixo.

Não significa eliminar o trânsito.

Significa criar alternativas e distribuir melhor o fluxo existente.

E cidades que crescem precisam de alternativas.

Imagine a diferença entre uma região que depende de poucos corredores e outra que possui diferentes possibilidades de conexão com o restante da cidade.

É essa lógica que precisa ser discutida.

Outro ponto importante é que, segundo as informações apresentadas na reunião, parte da área necessária para viabilizar essa ligação está em área de propriedade da Terracap.

Isso significa que uma parcela relevante da solução está dentro da própria estrutura fundiária do poder público. A forma de disponibilização dessas áreas e os procedimentos necessários para a implantação da via precisam, naturalmente, ser definidos pelos órgãos competentes.

Mas o dado merece ser colocado na mesa porque mostra que o debate não depende apenas da existência de uma área privada disponível para a obra. Há também uma questão de planejamento e decisão pública.

Uma rodovia que também precisa pensar no meio ambiente

Outro aspecto importante é que a proposta apresentada não segue simplesmente o modelo tradicional de uma rodovia.

O estudo foi inspirado em experiências internacionais, especialmente na Holanda, incorporando soluções de sustentabilidade e integração ambiental.

Entre elas estão passagens de fauna, barreiras acústicas, infraestrutura para ciclistas e pedestres e faixas destinadas ao transporte coletivo.

A proposta parte de uma ideia importante: infraestrutura e preservação ambiental não precisam ser conceitos opostos.

É possível planejar uma nova conexão levando em consideração a biodiversidade, a circulação da fauna, o conforto acústico e diferentes formas de transporte.

E precisamos também ampliar a discussão sobre os impactos ambientais de não fazer nada.

Quanto carbono é emitido diariamente por milhares de veículos parados em congestionamentos? Quanto combustível é desperdiçado? Quanto tempo das pessoas é perdido?

Sustentabilidade também significa pensar em deslocamentos mais eficientes. A pergunta, portanto, não deveria ser simplesmente se devemos construir ou não uma nova via.

Precisamos perguntar como uma eventual nova conexão pode ser planejada para reduzir impactos ambientais, melhorar a mobilidade e atender às necessidades de uma população que continuará crescendo.

Planejar antes que fique mais caro

Existe ainda outra questão que não podemos ignorar.

Quanto mais uma região cresce sem infraestrutura planejada, mais difícil e mais caro se torna corrigir o problema depois.

Quando novas ocupações surgem, as vias ficam mais estreitas, os espaços disponíveis diminuem, os equipamentos públicos precisam disputar áreas que já foram ocupadas e as soluções passam a exigir intervenções muito maiores.

Planejar antes é diferente de correr atrás depois.

A própria história da região mostra isso.

Alexandre conta que, quando chegou, muitas vias ainda eram de terra. Aos poucos, vieram a pavimentação, a iluminação, as duplicações e novas conexões.

Essas melhorias transformaram a vida de quem mora aqui.

Agora precisamos pensar no próximo passo.

Não apenas em corrigir o que já existe, mas em antecipar as necessidades de uma região que continuará crescendo.

A cidade precisa participar da decisão

A proposta da Rodovia Ecológica não surgiu agora. Ela foi estudada, apresentada e discutida ao longo de diferentes governos.

Naturalmente, uma intervenção dessa dimensão precisa ser debatida.

As comunidades diretamente impactadas por qualquer novo traçado precisam ser ouvidas. Suas preocupações são legítimas e devem fazer parte da discussão.

Mas também precisam ser ouvidas as milhares de pessoas que vivem na região sul do Jardim Botânico, em São Sebastião e nos demais territórios que dependem diariamente dessas conexões.

Precisamos colocar essas diferentes perspectivas na mesma mesa. Não para defender uma obra a qualquer custo. Mas para discutir alternativas. Para conhecer os estudos. Para avaliar impactos. Para ouvir a população.

E para que decisões que vão interferir na vida de milhares de pessoas não sejam tomadas sem que essas pessoas participem do debate.

O futuro que queremos preservar

Eu gosto de morar aqui justamente por aquilo que a região ainda preserva.

A tranquilidade. A proximidade. O comércio local. A possibilidade de criar minhas filhas com mais liberdade. O contato com a natureza. A sensação de comunidade. O ritmo de vida.

Não quero que o crescimento transforme tudo isso em uma lembrança.

Mas também não acredito que preservar a qualidade de vida signifique fechar a região para o restante da cidade.

Ao contrário.

Quero poder continuar escolhendo a região sul do Jardim Botânico para viver e, quando precisar, ter boas alternativas para chegar ao Plano Piloto, ao SIA, ao Aeroporto ou a qualquer outro lugar.

Quero uma região que tenha escolas, saúde, comércio e serviços suficientes para que seus moradores possam resolver cada vez mais coisas perto de casa. Mas quero também uma região conectada. Porque nenhuma cidade vive isolada.

Uma região forte precisa ter vida própria, mas também precisa estar bem conectada às demais regiões do Distrito Federal.

Talvez esse seja o verdadeiro desafio do planejamento urbano: não transformar a cidade em uma ilha, mas também não obrigar seus moradores a sair dela para encontrar tudo aquilo de que precisam.

Planejar uma cidade não é apenas desenhar mapas ou definir traçados. É compreender como as pessoas vivem. É ouvir quem mora aqui há décadas e quem acabou de chegar. É entender as necessidades de quem tem carro e, principalmente, de quem depende do transporte coletivo. É pensar nas crianças, nos trabalhadores, nos idosos, nos empreendedores e nas famílias. É aproximar o que está no papel da cidade que existe de verdade.

A região sul do Jardim Botânico continuará crescendo. São Sebastião continuará crescendo. Novas famílias continuarão chegando.

A pergunta não é se esse crescimento vai acontecer.

A pergunta é se teremos a capacidade de planejar esse crescimento sem perder aquilo que nos trouxe até aqui.

Escrito por Helena Mazzaro Peres de Saboya Rocha Miranda
Helena é brasiliense, administradora e estudante de jornalismo, com mais de 20 anos de experiência na indústria da construção civil. Mãe de duas meninas, é observadora das transformações urbanas, escreve sobre mobilidade, cidades e slow living, refletindo sobre o impacto do desenvolvimento no cotidiano das pessoas.

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